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Editora: 12min
Os medicamentos da classe GLP-1 funcionam imitando um hormônio produzido naturalmente no intestino, que promove a sensação de saciedade e retarda o esvaziamento do estômago. Vários deles foram desenvolvidos originalmente para tratar o diabetes tipo 2, e o efeito colateral — perda de peso significativa em muitos pacientes — acabou virando o motivo principal pelo qual o mundo passou a falar deles.
Nas últimas semanas, essas substâncias apareceram em três lugares ao mesmo tempo: no balcão da farmácia, em forma de comprimido; no debate sobre o que é doping no esporte de alto rendimento; e nas estatísticas de obesidade dos Estados Unidos, que dão os primeiros sinais de recuo depois de décadas de alta. As três frentes têm algo em comum: as regras que deveriam acompanhar essa expansão ainda estão sendo escritas.
O orforglipron, vendido com o nome comercial Foundayo e fabricado pela americana Eli Lilly, passou a ser vendido em farmácias do Reino Unido. É um comprimido diário, que pode ser tomado a qualquer hora, sem restrição de comida ou água — a diferença prática em relação às injeções semanais que dominaram o mercado até aqui.
A MHRA, a agência reguladora de medicamentos britânica, autorizou o produto no início do mês, e o Reino Unido é o primeiro país da Europa onde ele está disponível. Não é o primeiro comprimido do tipo por lá: em junho, a mesma agência havia aprovado uma versão em pílula do Wegovy. O Foundayo é licenciado para pessoas com índice de massa corporal de 30 ou mais, ou entre 27 e 30 com pelo menos uma condição associada ao peso, e também para melhorar o controle de açúcar no sangue em pacientes com diabetes tipo 2 mal controlado.
Por enquanto, só chega por prescrição privada. A Eli Lilly afirma estar trabalhando com o Nice, o instituto que avalia quais tratamentos o sistema público de saúde inglês deve cobrir, para uma eventual distribuição pelo NHS.
Para Henry Gregg, presidente-executivo da National Pharmacy Association, entidade que representa as farmácias britânicas, a novidade é "particularmente significativa para pacientes que não podem ou não querem tomar um medicamento injetável" e pode ampliar o público com acesso ao tratamento. Ele também cobrou que governo e NHS usem as farmácias para atender quem tem indicação clínica, em vez do que chamou de "loteria de CEP" nos serviços de controle de peso oferecidos pelos clínicos gerais.
Junto com o comprimido vem um problema que os farmacêuticos fizeram questão de registrar: falsificações. Versões falsas, sem licença ou adulteradas são mais fáceis de produzir em pílula do que em injetável. No ano passado, a MHRA apreendeu o equivalente a 250 mil libras em canetas emagrecedoras e ingredientes não licenciados numa fábrica em Northampton, e a Eli Lilly move ações contra fornecedores que acusa de participar de um mercado ilegal de seus produtos. A orientação repetida no lançamento foi direta: procurar esses tratamentos apenas em farmácias seguras e regulamentadas.
O debate ganhou visibilidade quando Serena Williams contou, no podcast de Oprah Winfrey e em entrevista à revista Vogue, que passou a usar tirzepatida — vendida como Zepbound e Mounjaro — depois de não conseguir perder peso após o nascimento do filho. Ela é embaixadora remunerada da Ro, empresa que administra essas medicações, e seu marido é investidor da companhia. O uso por uma atleta em atividade reabriu uma pergunta que nenhuma agência respondeu ainda.
Para uma substância ser classificada como doping, explica David Cowan, especialista em antidoping do King's College de Londres, ela precisa atender a critérios específicos: ter potencial de melhorar o desempenho, colocar em risco a saúde do atleta ou violar o "espírito do esporte". Hoje, os medicamentos para perda de peso não são proibidos no esporte profissional. Eles estão na lista de monitoramento da Agência Mundial Antidoping, a Wada — um programa que, segundo a própria entidade, inclui substâncias fora da lista de proibições que a agência quer acompanhar para detectar padrões de abuso.
A indefinição tem uma razão prática: os GLP-1 não foram estudados em atletas de elite. É o que aponta o cardiologista Massimo Mapelli, do Centro Cardiológico Monzino, em Milão. Ele avalia que a área mais evidente para uma futura proibição são os esportes com categorias de peso, como boxe e luta livre, onde perder peso já é vantagem competitiva — é por lógica parecida que diuréticos são banidos.
Do outro lado, cientistas do esporte argumentam que a substância pode até atrapalhar. Abbie Smith-Ryan, professora de fisiologia do exercício da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, lembra que muitos atletas de elite já têm dificuldade de comer o suficiente para sustentar o treino, e que a supressão de apetite somada a uma carga pesada ameaça energia, recuperação e desempenho. Há também a perda de massa magra: uma meta-análise recente calculou que cerca de 35% do peso perdido com semaglutida era massa magra, contra cerca de 25,4% com tirzepatida — e concluiu que essa perda pode ser bastante reduzida com treino de resistência, ingestão adequada de proteína e acompanhamento da composição corporal.
O endocrinologista Daniel Drucker, da Universidade de Toronto, que participou das pesquisas pioneiras com GLP-1 e é consultor de fabricantes, resume o estado da discussão: não há dados indicando que essas substâncias melhoram o desempenho de atletas, mas "a ausência de evidências não é evidência da ausência". Enquanto isso, diz ele, as agências antidoping estão em "voo cego". Procuradas, Novo Nordisk e Eli Lilly afirmaram não apoiar o uso fora das indicações aprovadas, e nenhuma das duas comentou o uso por atletas profissionais.
Os Estados Unidos convivem com uma epidemia de obesidade desde o fim dos anos 1970, e é a primeira vez que os dados apontam para o outro lado. "Estamos vendo sinais de que haverá uma virada", diz Benjamin Rader, epidemiologista do Hospital Infantil de Boston e da Faculdade de Medicina de Harvard. Em 2024, ele e colegas publicaram um estudo com dados de mais de 16 milhões de adultos que sugeria queda na prevalência da obesidade em 2023 — a primeira em mais de dez anos. A pesquisa nacional de saúde e nutrição do país também indicou leve redução entre 2021 e 2023.
O pano de fundo é o salto no uso dos medicamentos: o número de prescrições de Ozempic, Wegovy e Mounjaro nos EUA mais que quadruplicou entre 2021 e o início de 2026. Para Peminda Cabandugama, endocrinologista e porta-voz da The Obesity Society, há evidências robustas de queda significativa da obesidade, e a avaliação geral é que os GLP-1 tiveram papel importante e direto nela — combinados com mudanças de comportamento no período pós-pandemia e com a atenção maior dada ao controle de peso.
Ninguém envolvido, porém, declara vitória. Rader afirma que não há prova definitiva de relação causal e que é cedo para saber se isso levará a estabilização, queda ou apenas um crescimento mais lento nas próximas décadas. Cabandugama pede a mesma cautela. E um estudo do IHME, da Universidade de Washington, projeta o contrário: alta da proporção de adultos obesos de 42,5% em 2022 para 46,9% em 2035. Rader argumentou, em artigo no Journal of the American Medical Association, que modelos assim se baseiam em dados anteriores à explosão dos GLP-1 e podem superestimar o problema. Os autores do IHME responderam que só uma pequena parcela das pessoas com obesidade usa esses medicamentos, que muitos interrompem o tratamento em menos de um ano e que parte recupera o peso perdido.
Se você ou alguém próximo for buscar um desses tratamentos, a procedência é o ponto de atenção imediato. O alerta dos farmacêuticos britânicos não é abstrato: comprimidos são mais fáceis de falsificar do que injetáveis, e a chegada das pílulas ao varejo tende a ampliar o mercado paralelo que já existia com as canetas. Farmácia regulamentada e prescrição são o filtro básico. Vale lembrar também que a indicação aprovada é estreita — faixas específicas de IMC, ou diabetes tipo 2 —, e que os fabricantes declaram não apoiar uso fora dela.
Duas frentes merecem acompanhamento nos próximos meses. A primeira é a Wada: hoje os GLP-1 estão apenas monitorados, e a pergunta em aberto é se as agências sairão do monitoramento para uma regra explícita — provavelmente começando por modalidades com categorias de peso, que é onde os especialistas ouvidos veem a vantagem mais direta. A segunda são os próximos levantamentos de obesidade nos EUA. O sinal que separa tendência real de oscilação de curto prazo já foi apontado pelos próprios pesquisadores: quantas pessoas continuam no tratamento além de um ano e quantas recuperam o peso depois de parar.
E quem usa esses medicamentos treinando pesado tem um alerta específico na literatura citada pelos cientistas do esporte: comer pouco demais para a carga de treino compromete recuperação e desempenho, e a preservação de massa muscular depende de treino de resistência, proteína suficiente e monitoramento. Como diz Rader, uma virada nas estatísticas não significa que o problema acabou — inclusive porque, pelo preço e por outros fatores, esses medicamentos não estão ao alcance de todos.
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